ColunadoGárgula
Crônicas, manifestos e reflexões da irmandade. Textos nascidos nas estradas, nas sedes e nas paradas de café.
Crônicas, manifestos e reflexões da irmandade. Textos que nasceram nas estradas, nas sedes, nas paradas de café — e que retratam o que é ser Gárgulas.
A VISTA DO MEU PONTO
No último domingo havia preparado um pequeno passeio de moto com minha nova namorada e alguns amigos. Um passeio domingueiro, justo para queimar um pouco de adrenalina, algumas horas com a moto sem pressa e desfrutando do bom tempo. Pelo menos não era para ser complicado.
Minha versão: ficamos no lugar de sempre, e como sempre o pessoal chegou uma hora e meia atrasados. Saímos em marcha, desviei alguns sinaleiros e em seguida a estrada — bonita e tranquila, curtindo o vento e o sol na cara. A máquina anda firme. Localizamos a festa com facilidade e este foi mais um passeio agradável.
A versão dela: "Você tá ficando louco, primeiro me deixa duas horas esperando, disse que seria um passeio, e corria feito louco querendo me matar."
Como? Será que viemos na mesma moto? Como podem os dois ter versões tão diferentes para o mesmo fato? As coisas não são todas pretas ou completamente brancas, nem todos os índios eram maus e os pistoleiros bons, ninguém está em posição de verdade absoluta. Isso nos faz refletir sobre como vemos e como somos vistos, quando passamos com nossas motos às vezes fazendo barulho e com as roupas que gostamos. Mas o que fazer se somos loucos por graxa e ferrugem?
Como já dizia um amigo: "de sujeira nunca vi ninguém morrer, mas de água já morreu muita gente". Podemos até ter a lataria suja mas o motor limpo — quero dizer, a roupa suja mas a cabeça e o coração limpos.
A vida é assim — cada um na sua, mas com alguma coisa em comum.
OS PRIMEIROS MCs E AS MOTOS DE HOJE
Os motoclubes têm quase a mesma idade das motocicletas. As gangues que assolavam a América dos anos 50 e 60 marcaram época, mas os clubes já estavam organizados antes disso. Em 1930, embora não reconhecidos, já existiam motoclubes — e a partir do fim da II Guerra tomaram grande impulso.
Uma passagem que marcou os primórdios do motociclismo foi a invasão de Hollister, em 1947, quando mais de 4000 motos invadiram uma cidade de apenas 4000 habitantes. O cinema relatou este episódio retratando os motociclistas como bandoleiros — alguns o são, mas a maioria não, e por isso não podemos culpar a todos.
Os veteranos contam: o xerife local triplicou a força policial e determinou que os estabelecimentos vendessem apenas whisky aos bikers, acreditando que pelo preço mais alto não teriam dinheiro. Acabou em batalha campal: 50 feridos e uma centena de presos. A sentença mais longa foi para um membro do BOOZE FIGHTERS MC — 90 dias por bebedeira e por ter urinado no radiador de um ônibus.
Desde então o movimento cresceu mundialmente. Nos anos 50 e 60, cortar as motos para customizar virou moda, com ponto alto no filme EASY RIDER. Hoje, dispomos de gama virtualmente infinita de acessórios, oficinas especializadas, motos customizadas com peças banhadas a ouro. Aquilo que no início do século passado seria um meio de transporte mais rápido que uma bicicleta acabou se tornando um estilo de vida — uma paixão que movimenta milhões.
GARUPA
Quantas vezes falamos com um pouco de desprezo a frase "veio na garupa" — e por que não damos o devido valor a todos que viajam na parte traseira de nossas montarias? Qualquer um que tenha rodado sobre duas rodas sabe que uma boa garupa é um co-piloto.
Por acaso não caem juntos? Não passam frio no inverno e se molham quando chove? Correm menos perigo quando a curva foi mal tangenciada?
Quando tuas mãos pequenas agarram forte a minha cintura e sei que estás aí, então tudo está bem. Controla a gasolina, os quilômetros, em qual trevo mudar de estrada. Conheces os barulhos da máquina, suas vibrações, suas necessidades. Sabes quando estou apertando demais. Quantas vezes em viagens me coloca um lenço no pescoço para que não sinta frio. Quantos quilômetros tem passado me falando ao ouvido porque sabes que estou dormindo. Quantas horas ao meu lado na beira da estrada enquanto procuro o defeito nas entranhas da máquina.
Sei que a imagem de sempre é a de um piloto sozinho devorando os quilômetros. Mas tenho que reconhecer: este monte de ferros já não é só meu — é nosso.
Para todas as garupas: minhas palavras de alento para que jamais desanimem. E para as que são garupa por puro prazer, por gostar — obrigado por estarem aí. Não permitam que ninguém tire de vocês o título de co-pilotos.
Em breve
Outras crônicas
· "A Final" — sobre escudo que não se compra, se conquista. Por respeito às instituições, às cores e à honra do motociclismo organizado.
· "MC e (mc)?" — sobre a evolução da percepção social do motociclista, entre clubes sérios e modismos passageiros.
Texto completo disponível com a diretoria.
Toda crônica é uma estrada percorrida.
A próxima começa quando você liga a moto.
